O mar não fala mais comigo, o guarda-roupas nunca falou comigo, meu pai não tem falado comigo, meu papagaio está dormindo, as margaridas não cheiram mais como antes e as paredes não dizem nada e me olham. O lugar passa. Eu passo pelo corredor, entro no banheiro, a torneira faz seu monólogo, mas não é uma conversa. A vela não está dialogando com o som, nem o som se dirige a mim e espera minha opinião, vai indo de uma msica à outra sem se importar se estou gostando. Ou não. Não espera que eu peça uma msica, simplesmente toca. Eu não espero mais que esperem minha voz, eu falo e me escondo, e me escondo e falo mais baixo.
Lá embaixo havia um diálogo. Minhas pernas tentam conversar, mas suas mãos ficam longe de escutar - precisaria se aproximar, e me ouvir, ouvi-las, é o que você quer? o que eu quero? Eu quero dialogar. Não precisa ser assim, claro. Não há outro jeito, eu tento conversar com meu umbigo, não há saída. Minhas
saídas seriam ler e ler e ler, assistir um filme, mergulhar em outra realidade que não fosse a minha, dessa minha estou cansada. Mesmo. Cansada mesmo dessa minha não-realidade presente. Minha realidade é querer outras realidades, talvez presentes - em quem? Onde? Onde está minha mãe? Ali deitada, em outro quarto. Onde fica meu pai? Ali no telefone, em outro estado. Eu estou alterada, estado alterado de carência extrema. Saco.
Sem pai nem mãe nem imaginação, imaginação poderia me salvar - salvar de quem? Dessa maldita insônia. Estou morrendo por falta. De sono. Essa falta de troca, de imaginação, troca de imaginações. Escambo de realidades. Venda de colo, quanto meus ouvidos devem pagar por um colo? Troca de olhares, vejo você de outra forma, veja a si mesmo dessa forma - mexendo no meu cabelo enquanto fala, vamos fazer o quê? Esperar por uma frase, esperar por quê? Trocar a minha alma por um beijo. Não, não me ligue, eu não espero mais que um colo, não queira mais que poucas palavras, eu quero ficar quieta, eu quero falar muito, não espere a mínima coerência, tenho pensado tanto que cheguei à incoerência de não saber como dizer. Tento treinar com as paredes - ainda sei beijar? Acho que não, acho que nunca soube realmente. Você gostava de como eu beijava? Ok, muitas vezes eu não queria beijar, tinha uns ataques cinéfilos de beijos antigos, lábios colados numa posição que fazia rir. Ou, por aquele filme que eu gostava tanto, “na boca não” - mas o seu beijo, eu amava. Você simplesmente tinha que conviver com meus ataques, e eu com os seus. Era tão complicado assim, ou nos entendíamos em nossos desentendimentos? Entender não é importante. Eu te amava. Você entende porque alguns casais se amam e outros não? Entende porque eu não amei todos que eu conheci? E acha que conheci todos com quem fiquei? Acha que você me conheceu pouco ou bastante, o bastante para me odiar, um pouco para se sentir apaixonado no início ou lá pelo meio? Acha que estou complicando o simples, e apenas isso, complicando o que é simples?
Não nos falamos mais, é simples, isso é simples e difícil. Difícil para mim. Acho que não repetiríamos erros (brutais, imaturos) mas se repetíssemos, acho que eu… não, não acho que repetiríamos, nada se repetiria. Somos outros agora, sendo os mesmos, então acho que… a minha natureza, a sua natureza, fora daquele contexto, fora daqueles nossos problemas, dentro de outros problemas, sendo a realidade outra, essa, agora, atual, como seria? Conversaríamos sem receios, como antes? Seria espontneo (isso é perigoso, dependendo de - de tantas coisas, de quem seja, e com quem, e quem está ao redor, e etc, tantas coisas, onde eu estava? - ah isso pode ser perigoso, ser espontneo…) - mas seria espontneo ou haveria um - muro? Defesas entre nós? Palavras entre nós? Quero colo - seu, não das margaridas. Procuro o colo delas. Agora. Eu converso com elas, reclamo que o mar não fala mais comigo, o mar verde-água translcido com algas macias e perfumadas no fundo. O mar que morava em mim quando eu mexia no seu cabelo. O mar que se agitava em mim quando eu deitava com você. O mar que escrevia quando você me abraçava. O mar que era msica enquanto a gente acordava. Eu, aos poucos, vou andando. Até o guarda-roupas, que nunca falou comigo, buscar alguma coisa que não se encontra lá.
* Essas noites de insônia estão me matando.