Fim de tarde em Salvador. O sol demorou a se pôr, como era comum naquela época do ano. Já era possível sentir no ar o inicio do verão, com uma multidão de turistas comprando lembrancinhas e passeando pelas ruas. Mas não me sentia feliz. Algo estranho me incomodava, sem que pudesse dizer exatamente o que era. Faltava-me algo, mas sabia que não seria a presença de ninguém que me faria mais feliz. Saber onde se esconde a tristeza é uma tarefa árdua, ainda mais quando essa tristeza é tão silenciosa. Por isso, não creio que chegasse a ser tristeza: apenas uma melancolia quente que sentia… Um querer algo, saudade sem destino. Ansiedade.
Resolvi tomar uma bebida. Não sou de beber nada alcoólico, mas algo me impelia a isso. Decidi por um gim. Seco. Ao entrar no bar, fui surpreendida pelo jazz de John Coltrane, num volume ameno, doce e quase tão melancólico quanto eu. Sentei-me. Ele desfilava pelo bar com um ar ingênuo e descontraído, quase infantil. Ele sorria muito. Falava com um sotaque de cidade do interior, que nunca esqueci. Minha avó também tinha aquele jeito meio caipira de falar. Não sei direito como explicar a sensação que tive, só sei que fiquei sem palavras ao vê-lo de perto:
- Deseja alguma coisa, Senhorita?
Ele era cego. Seus olhos eram de uma brancura insuspeitada à distância. Sorriu como se visse a minha perplexidade:
- Sempre é assim… As pessoas…
- Não, não é nada disso. É que…
- Não há necessidade de pedir desculpas. Já estou acostumado.
Sem ação estava e assim permaneci. Seu rosto belo e de linhas suaves não se alterava:
- Então, senhorita. O que deseja?
- Um gim. Seco.
- Mais alguma coisa?
- Não, obrigado…
Sorriu novamente. Saiu. Continuava se movendo por entre as mesas sem sustos, sem sobressaltos. Leve. Vibrante como se cada segundo fizesse um sentido imenso. Parecia que sabia que não vale a pena levar as coisas muito a sério, e as encarava com uma calma!
Saí do Bar completamente inerte.
Caminhei pelas ruas até alta madrugada, com um gosto forte de gim travado na garganta. E já não saberia dizer em que ponto exatamente da noite reaprendi a olhar para os arranha-céus da cidade, e a sorrir para os pedintes, agradecendo aos céus a alegria de ser eu mesmo.
Escrevi esse conto para um menino que conheci há um ano atrás e me apaixonei… Ele tinha problemas de visão. O seu sorriso era o mais intenso que já conheci.
Notas Atualizadas:
Texto muito antigo.
Escrito em 02.02.2002.
Quando eu achava que sabia escrever, quando eu tinha uma coluna numa revista feminina on-line, e quando eu achava que sofria muito por amor.