Agosto de 2007


Fim de tarde em Salvador. O sol demorou a se pôr, como era comum naquela época do ano. Já era possível sentir no ar o inicio do verão, com uma multidão de turistas comprando lembrancinhas e passeando pelas ruas. Mas não me sentia feliz. Algo estranho me incomodava, sem que pudesse dizer exatamente o que era. Faltava-me algo, mas sabia que não seria a presença de ninguém que me faria mais feliz. Saber onde se esconde a tristeza é uma tarefa árdua, ainda mais quando essa tristeza é tão silenciosa. Por isso, não creio que chegasse a ser tristeza: apenas uma melancolia quente que sentia… Um querer algo, saudade sem destino. Ansiedade.

Resolvi tomar uma bebida. Não sou de beber nada alcoólico, mas algo me impelia a isso. Decidi por um gim. Seco. Ao entrar no bar, fui surpreendida pelo jazz de John Coltrane, num volume ameno, doce e quase tão melancólico quanto eu. Sentei-me. Ele desfilava pelo bar com um ar ingênuo e descontraído, quase infantil. Ele sorria muito. Falava com um sotaque de cidade do interior, que nunca esqueci. Minha avó também tinha aquele jeito meio caipira de falar. Não sei direito como explicar a sensação que tive, só sei que fiquei sem palavras ao vê-lo de perto:

- Deseja alguma coisa, Senhorita?

Ele era cego. Seus olhos eram de uma brancura insuspeitada à distância. Sorriu como se visse a minha perplexidade:

- Sempre é assim… As pessoas…

- Não, não é nada disso. É que…

- Não há necessidade de pedir desculpas. Já estou acostumado.

Sem ação estava e assim permaneci. Seu rosto belo e de linhas suaves não se alterava:

- Então, senhorita. O que deseja?

- Um gim. Seco.

- Mais alguma coisa?

- Não, obrigado…

Sorriu novamente. Saiu. Continuava se movendo por entre as mesas sem sustos, sem sobressaltos. Leve. Vibrante como se cada segundo fizesse um sentido imenso. Parecia que sabia que não vale a pena levar as coisas muito a sério, e as encarava com uma calma!

Saí do Bar completamente inerte.

Caminhei pelas ruas até alta madrugada, com um gosto forte de gim travado na garganta. E já não saberia dizer em que ponto exatamente da noite reaprendi a olhar para os arranha-céus da cidade, e a sorrir para os pedintes, agradecendo aos céus a alegria de ser eu mesmo.

Escrevi esse conto para um menino que conheci há um ano atrás e me apaixonei… Ele tinha problemas de visão. O seu sorriso era o mais intenso que já conheci.

Notas Atualizadas:
Texto muito antigo.
Escrito em 02.02.2002.
Quando eu achava que sabia escrever, quando eu tinha uma coluna numa revista feminina on-line, e quando eu achava que sofria muito por amor.

Minha placa de TV nova não seleciona todos os canais
e eu sou a garota mais gelada de Salvador
E é patético eu dizer que te amo
mas é isso: te amo
E eu sou a garota mais gelada
all the time
e é você quem me esquenta
all the night

Musiquinha favorita que tem no meu joguinho favorito. :)

Ela come chuchu, batata, cenoura e abobrinha na hora do almoço. Depois do jantar, boa parte do tempo se diverte entre sexo-gostoso e filmes de comédia-amor-drama-ação-terror. Durante o resto do dia, Ela escuta as pessoas expelirem abobrinhas pelos poros, em conversas, em blogs, e também observa a mania que elas têm em repetir sobre o que passou. Outro dia, leu em dois blogs diferentes, textos seus antigos.
A vida é um verdadeiro peão, uma roda-viva sem limites. Ela se sente no centro, e as situações acontecendo num verdadeiro vai-e-vem. Ontem sofreu muito, não pela pessoa que se foi, mas pelo que deixou. Ela ficou impressionada como a dor permanece latente, dor de 3 anos atrás, que não cessa, não diminui, mesmo com o pó do tempo escorrendo rápido…
Mas não quer mais lamentações, descobriu que repetir suas antigas histórias ou todo aquele lenga-lenga de pobre-garota-sofrida não a leva há lugar algum, a não ser no paradeiro dos seus textos em outros blogs.
Por isso, largou tudo de lado, montou uma empresa de doces, divide melhor o seu tempo com quem ama e o que ama fazer. De vez em quando posa para o passado, arruma-o em ordem alfabética na estante, lê-o com cuidado e respeito, empilha várias tristezas, sopra o mofo das lembranças felizes, não vê o dia disso tudo virar um livro de receitas para os seus filhos, e continua, de vez em quando, mandando o resto se fuder.

Com um breve farfalhar das folhas das árvores na janela, e com o cheiro de neném desprendido pelo meu cabelo ao mesmo tempo, lembrei de você, Isabela. :)

- Próxima Página »