Abril de 2005


*Uma canção escrita por mim para tocar no meu headphone.

Você pode inventar estórias
Só para se distrair.
Você pode fazer tipo
Contar mentiras, fazer bobagens.
Você pode contar segredos
Para estranhos.
Você pode tudo,
Menos me esquecer.

E toda vez que o céu
Mudar de cor
E a lua deitar com as estrelas
Você vai lembrar de mim.
E toda vez que um headphone
Passar ao seu lado
Em uma garota de cabelos cacheados
Você vai sim, lembrar de mim.

Você pode chorar
Pelos motivos errados.
Procurar o seu momento
Numa música triste (rock triste?).
Sorrir ou chorar num show,
Lembrar dos murros que dei.
E se perder,
Tentando não me encontrar.
Você pode tudo,
Menos me esquecer.

E toda vez que o mar
Beijar a areia
E uma onda se acalmar.
Trazendo para perto de ti
Um brejeiro siri
Você vai lembrar de mim.
E toda vez que um beijo
For roubado
E um sorriso insistir em sair
Você vai sim, lembrar de mim.

Porque o nosso amor é diferente.
É inerente.
E vai estar para sempre,
Na sua mente
E no meu coração.

Pra que ter domicílio
Se eu me quero
Pra viagem?

Garoto do Gorrinho e Garota do Headphone

Conquiste-me como se fabrica um vinho branco: de maneira rápida e avassaladora.
Engarrafe-me junto a ti.
Misture depois mais doçura, levedura e deixe o gás natural da nossa relação acontecer.
Ponha o meu mundo de ponta a cabeça.
Cuide para que a garrafa seja virada e revirada dia-após-dia.
Encha-me de surpresas e alegrias.
Observe que a tristeza começará a descer para o gargalo.
Congele-a junto com todos os nossos medos e o nosso passado mal-assombrado.
Em seguida, abra-a rapidamente e arranque a parte sórdida fora.
E, então, force a tampa e deixe-a estourar, transbordar com força e vontade a nossa paixão. Uma paixão repleta de borbulhas de respeito, carinho, poesia e amor.

Virei a pequena página e já era abril. Como é fácil fazer o tempo passar! Mas olho para o relógio - ele marca o tempo – e percebo que ainda falta muito, muitos dias para abril, que abril é um mês distante lá longe, sumido nos princípios do outono.

Suspiro, juntando os cacos do dia que se partiu como uma taça entre os meus dedos quando tentei agarrá-lo. Partiu-se e vi meu sangue. Não gostei, mas mesmo assim lambi os dedos com insuspeitada lubricidade; o deleite que nasce da dor e de novo tornar a doer.

Foi quando, nesse silêncio inabitado e morno, tive que ceder à febrícula e à náusea, e senti tonturas, e senti medo e quis vazar pelos olhos até secar. Ces’t un plaisir, disseram os gatos da rua, ao que concordei com um leve assentimento. Derreter pela cadeira, escorrer pelas frestas, transformar-me em divagação e nuvem. Em neblina; congelar um ósculo na escuridão e voltar para a terra firme após uma pequena viagem tecnicamente sem volta. Um ósculo frio e enternecido pela súbita adição de calor dos lábios de alguém.

Por que você cala? Por que não fala… nada?

O que você quer de mim?

Chove desde sexta-feira de madrugada. Meio frio, dias azuis pela tarde. Depois fica tudo cinza e chove de novo. Chove agora, molha a rua e meus olhos doem um pouco. Mas só um pouco. Muita sonolência, pressão baixa, remédios, ambiente fechado, quase 24 horas deitada de domingo para sábado. Ontem e anteontem de noite, você, deitado ao meu lado. Dias de chuva não deviam acontecer quando já chove por dentro. Você gosta de chuva? Tem quem não goste de geléia de uva, e rimas fracas nunca foram meu forte.

Um vazio, um aviso de calafrio me percorre antes de teclar com os dedos tensos e a mente torpe estas linhas frias em um dia morno. Baforadas de pecado, conjunto de desejos que me aparecem sem aviso e me dizem “por favor”. Consumo-me como ao ar que respiro e ventilo meus ares com seus ventos de metileno e cócegas na alma. Sim, como é fraca a nossa alma, como é falha a nossa calma, como as mentiras jogam os direitos contra o chão sem armas nem gosto doce nos lábios.

Papel fino e flores mortas, todas enroladas no turbilhão que escapa na ponta da brasa e te subtrai consciência, te exonera instinto, te faz perder palavras na cabeça e dá fome de idéias. O passado parece uma mosca morta comparada ao inusitado futuro atrás da porta. Você não está comigo e quer me vedar dentro de caixinhas ou de tupewares até a sua vontade de comer chocolates chegar. Sempre assim, sempre desejos e temperos esparsos, aqui e acolá.

Por isso o edredom tem se tornado tão curvilíneo, tão repleto de sonhos. Um amor diferente tem ocorrido, um quádruplo envolvimento entre a cama, a fugitiva, o travesseiro e o edredom. Corro para esse esconderijo, essa caverna rasa e funda que eu me perco e me mantenho quietinha. Tenho liquidificado e bebido tanto umas histórias tutti-frutti’s. Como a luta de rebeldes e Jedi’s contra o lado negro da força, e o resgate dos Smurf’s desse exército do mal. Creio agora que o Gargamel virou o Darth Vader. E eu, a Cintilante, a melhor amiga da She-Ra.

Eu poderia começar essa historinha com era uma vez. Mas por que sempre nos contam do passado? Será que a magia da vida não acontece mais nos dias de hoje? Pois então. Essa historinha começa assim no presente: é uma vez uma menina que só conseguia dormir na diagonal. Ok, ok, ok, você quer que eu explique melhor o que anjinhos significa dormir na diagonal. É simples, presta atenção. Cada vez que os pais da menina a colocavam para dormir direitinho na cama, retinha, retinha, no meio da noite ela começava a girar o corpo feito um ponteiro de relógio até ficar assim \. A mãe ficava preocupada porque o cobertor caía e o friozinho da madrugada não fazia bem para a asma da filha. O pai se perguntava o que havia feito de errado para que a sua princesinha dormisse daquele jeito. Ele tinha medo de que os seus sonhos ficassem todos tortos. Afinal, existem aqueles casos de pessoas que sonhavam de forma torta e acabaram se tornando adultos que nunca mais conseguiram realizar tarefas em linha reta. Eu sei que tem gente que não acredita nisso. Mas pense naquele seu amigo que vive caindo da bicicleta. Ou na sua avó que já bateu o carro na lixeira da rua umas vinte vezes. E o que dizer do tio que não consegue levar um garfo à boca sem sujar toda a calça de comida? Então, todos eles dormiam na diagonal. Por isso, a preocupação dos pais da menina. Consultaram médicos, cientistas, computadores, oráculos, fantasmas até. Mas nada. A menina continuou dormindo na diagonal. Só que, por um desses milagres da vida, ela se tornou uma adulta normal. Menos em um quesito: o beijo. Sempre que vai beijar alguém na boca, acaba beijando a bocheca. Ou o nariz. Ou a orelha. Qualquer coisa, menos a boca do coitado que está esperando um beijo todo apaixonado. Ela tinha que segurar com força a cabeça do garoto que queria beijar para que conseguisse tocar os seus lábios. Só que a força era tanta que ela já estava cansada. Até que um dia a menina conheceu um menino que não se importava com beijos. Ela não entendeu muito bem como alguém não se importava com beijos, afinal beijar é tão bom. Mas gostou do menino mesmo assim. E começaram a sair juntos, a dançar juntos, a caminhar juntos. Um dia o menino estava cansado demais e a sua casa era muito, muito longe. Aí a menina o convidou para dormir em seu castelinho. Ele ficou envergonhado, mas aceitou o convite. E, assim, os dois deitaram na cama. Qual foi a surpresa da menina quando, de madrugada, viu que não havia apenas um ponteirinho sobre o colchão e sim dois! Dois \\. Simetricamente tortos. O final dessa história é muito óbvio. Mas a gente sempre se recusa a enxergar o óbvio, não é mesmo? Então, aqui está o final para vocês: o caminho torto da boca da menina se encontrou com o caminho torto da boca do menino. Hoje, ela não precisa mais de truques para beijar. E ele finalmente aprendeu o quanto beijar é bom.

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