Setembro de 2004


Perdida entre o tempo e o espaço. Entre o choro próximo ao meu quarto. E as lágrimas que escorrem da minha própria face. Entre o medo e a angústia de não poder reter os segundos. As horas. Os meses. A vida. Você do meu lado. Eu não consigo imaginar o que eu posso ter feito para você querer me abandonar desse jeito. Não agora que eu tenho tanto para lhe mostrar. Sempre tenho tanto para conversar contigo, tanto para lhe querer por perto. Desde o momento em que me sentia dentro de você.
Confesso que sempre tive um medo incontrolável da morte, quase doentio. Acho isso até bem normal e acho também que o tempo e a maturidade nos ensinam muito a lidar com nossos medos, a controlar os nervos e aprender a superar mesmo as coisas mais difíceis. E eu aprendi a evitar a morte, a não pensar nela, e acho que esta prática facilita muito a vida, mas vendo tudo o que está acontecendo em minha porta, ao imaginar que eu convivo com ela de forma impressionante, fico pensando se talvez não fosse melhor mudar o conceito de que é bom chegar ao final da vida com pleno desenvolvimento cerebral, que talvez seja realmente melhor que a desintegração cerebral acompanhe na mesma proporção a desintegração física, facilitando o duro processo a que estamos encurralados a atravessar.
Será que não há uma força acumulada por décadas para simplesmente não desistir, como fazem muitos, que se encostam a suas poltronas e esperam a morte chegar?
Quando eu era criança, chorava no meio da noite com medo da morte. Minhas lágrimas não acodiam e não acodem mesmo agora nem nunca, não relevam, não comportam, não absolutamente nada e não sei se há alguma coisa a ser dita que possa fazer alguma diferença para minha mãe que não a demonstrem o quanto ela é importante para mim, para a minha família, para a manutenção de valores e idéias numa sociedade mais dilacerada que seu frágil corpo. Não sei o quanto tempo ela viverá ainda, não sei mais se torço para que sejam muitos anos vendo o que ela está passando, se negando a se tratar, vendo o quanto o homem é pequeno frente ao seu destino, vendo o que é capaz de acontecer com o organismo humano com uma doença dessas.
Felizes os que ainda contam com a ajuda da Igreja, um decisivo subterfúgio que sem dúvida alivia agora e sempre e de certa forma conforma. Fico feliz por ela ter essa fé. Porque mesmo negando a doença, ela acredita que a doença não existe e é criação da mente. Porque eu jamais me conformarei, jamais, sou uma pessoa instável e não consigo me contentar em seguir sempre um script, minhas pernas tremem, incomodam, querem se mexer, querem fugir a regra. É tão difícil aceitar um destino pronto que me volta intensamente a velha vontade de chorar.
Ao não me interessar pela morte, acabo não aprendendo muito e realmente, às vezes, não sei o que dizer a minha mãe. Não sei o que pensar sobre o rompimento da hierarquia da vida, ela, antes dos meus avôs que estão logo ali ou até mesmo eu batendo insistentemente na porta, sem solução, sem possibilidades, apenas seguindo uma lógica insubstituível da vida.
Minha mãe está ali, sentada a poucos metros de mim, mal me ouve, está centrada em seus pensamentos 15, 18 horas por dia, se comiserando, enquanto a natureza se encarrega do resto. E diante de variantes quase nulas, ainda me pego às lágrimas, eu que estudei matemática, que entendia de lógica e jamais ousei encarar as ciências exatas e as contas que acabam sempre no mesmo resultado.
Provavelmente estarei até o fim com lápis, tinta e mouse na mão. E é só o que eu posso esperar por enquanto da minha mãe. Enquanto ela não decidir se curar. Se não podemos vencer, pelo menos honremos nossa presença aqui lutando incondicionalmente até o fim, até o último momento, tentando aproveitar da melhor maneira possível.
E assim vamos tentando e tentando e tentando. Se for só o que nos resta, por que não fazê-lo enquanto tivermos forças?

Depois de algum tempo…

“Minhas lágrimas não caem mais
Eu já me transformei em pó
E meus gritos não se escutam mais
Estão na direção do sol

Se alguém encontrou
Um sentido pra vida chorou
Por agüentar a perda que se tem ao fim de tudo
Transformando o silêncio que até então é mudo”

Duca Leindecker

[ Recado Direcionado ]
Obrigada pelas poesias que tem feito pra mim, ciumento.

O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis ,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.

Fernando Pessoa

Isso se aplica a nós, Renato.

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos.
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo.
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas, nem a fascinação das promessas.
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um trasbordamento de carícias.
E só te pede que repouses quieta, muito quieta.
E deixe que as mãos cálidas da noite
Encontre sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

Afogo-me no mar do desespero.
Não me encontro mais em mim mesmo.
Só no aconchego dos teus braços iluminados
eu conseguirei me salvar.

Olho para a sala onde me encontro e vejo porta-retratos se multiplicando assim como as versões cronologicamente entrecortadas dessa menina, de você e dela. Todas as cerimônias, individuais e conjuntas, estão ali: formaturas, nascimento, batizados, aniversários, casamentos. Alguns no singular, outros no plural.
Você fala comigo alguma coisa sobre como anda a minha vida, e eu, eu só me preocupo com a dela. Com a reserva de dor e preocupação que ela anda guardando no peito e na cabeça. Elas têm se multiplicado e se espalhado por toda família. Fico a espera dela para cuidar da menina.
Eu respondo um “bem” por default e você ri do quarto adivinhando que eu não havia prestado atenção em nada do que perguntou. E então entra na minha semana, levanta a menina do chão e faz algum dengo que deflagra carinho para ambos que amenizam as profundas agulhadas na alma desta menina laranja e amarelo desespero.
Preciso que ela volte a olhar para mim, com aqueles doces olhos castanhos e eu, finalmente, acredito em tudo, reviro o mundo se for necessário para fazê-la feliz.

Change your heart
Look around you
Change your heart
Will astound you
I need your lovin’
Like the sunshine

Everybody’s gotta learn sometime
Everybody’s gotta learn sometime
Everybody’s gotta learn sometime

I need your lovin’
Like the sunshine

Everybody’s gotta learn sometime
Everybody’s gotta learn sometime

Algum momento da madrugada:

Eu não amo ninguém, o meu amor é só seu.
Em meio às lágrimas, um sorriso.

Ok. Tecnicamente não há uma clínica como no filme Eternal Sunshine of The Spotless Mind para que eu possa recorrer e apagar a minha memória.
Tecnicamente eu guardo a maioria das coisas que me dão. Principalmente palavras e lembranças. Tecnicamente eu sou muito tonta, pois só os tontos fazem isso. Ou será que eu não tenho mais o que fazer? Vou procurar.

As fotos do show da banda Automata na segunda ficaram legais. As melhores são aquelas que eu tirei quando estava nas nuvens.
Enfim, é isso, tecnicamente, uma noite de bebedeira pode ser o melhor remédio nesse exato momento.
Tecnicamente esse blog estará fora do ar. Estou passando por problemas muito sérios. Tecnicamente preciso manter o foco na minha família. Até.

Depois de encarnar novamente a “Forgetful Lucy”, as coisas à minha volta estão se encaminhado tranqüilamente… Tenho aproveitado mais o meu tempo, e pensado em farrear mais com meus amigos. Até as coisas do cotidiano têm sido engraçadas. Como a aula de yoga em dupla, por exemplo. É divertido sentir as minhas mãos escorregando das de Paulo enquanto tentamos puxar e segurar um o corpo do outro, rompendo nossos limites. Sorte minha ser alta. Assim, sempre pego meus colegas do sexo masculino para fazer dupla comigo. Risos.

Outra coisa interessante é que nos próximos dias eu terei que fugir do sol (como se eu não fizesse isso naturalmente). Retirei quatro pintinhas do rosto e duas do pescoço. Tô um charme com essas manchinhas-preto-queimado, para não dizer o contrário. Bem, mas pelo menos eu vou poder atenuar um pouco o “efeito joaninha” da minha pele.

A parte triste desses dias é que vou ficar sem meu querido amigo-professor de natação e hidro. Ele está se casando nessa sexta, e desde ontem ele foi substituído pelo Jorge (pessoa muiiiiiiiiiiiiiiiito gente boaaaaaaaaaaaa também). Mas a questão é que só sinto uma sensação de paz quando vejo Tio Rubinho na frente da piscina, esperando os alunos para começar a aula. Parece esquisito, mas ele, aquele ambiente, aquela água, me trazem energias positivas. O consolo é que vou ficar sem ele apenas por uma semana e meia.

Já a parte doce… É que eu tenho uma nova e deliciosa companhia para dormir. Shiuuuuuuuuu. Segredo. Meu segredo.

p.s. - Leiam o conto de baixo. Achei que ele ficou muito fofo e está condizente com as minhas vontades sanguinárias desta semana.

Seus troféus marcados em sua pele. A ferro quente, tinta. Tatuagens belíssimas, à custa de muita dor. Formas irreais, aladas, em movimento. Azuis e rosas, alaranjados. Seu corpo coberto por aquilo de sonho, alucinação. Ele mesmo desenhava as figuras, com detalhes, fazia os desenhos a lápis de cor, horas e horas de delicadeza e paixão. Depois, ia até o ateliê de tatoo mais confiável e deixava a transformação acontecer. A cada vez, ele era outro. A cada vez, seu poder sobre si mesmo aumentava mais e mais. Uma obsessão. Não conseguia compreender o porquê.

Ele trabalhava no centro da cidade, perto do bairro oriental. Numa cidade qualquer, num centro qualquer, no bairro oriental de sempre. Toda a sorte de olhos puxados misturados a pensamentos zen. Óleo de soja, peixe frito. Legumes com shoyu. E artes marciais em profusão. Ele sentia-se bem ali, era admirado, respeitado, podia até afirmar que era idolatrado. Não entendia muito bem o porquê daqueles sorrisos de admiração, ele, um estrangeiro ali. Na verdade, ele era alguém bem simples, um favelado que nem falava português direito quanto mais essas línguas alienígenas. Sinceramente, não compreendia uma palavra que lhe dirigiam. Mas, era querido ali, como nunca antes.

Foi caminhando pela rua principal do bairro que ele a viu pela primeira vez. Uma espécie de princesa do lugar, uma menina quase moça, filha do mafioso mais poderoso dali. Daquelas que nunca ele poderia nem sonhar. Mas, foi ali, no meio da rua, ela passando no carro do pai, devagar, que ela o olhou. Olhos puxados, alongados, doces. Felinos, escuros. Não conseguiu evitar perder-se por um momento. Deixou os papéis soltos na mão e eles voaram com o vento. Acordou com o movimento deles, em volta. Porra, tinha que ir ao banco.

Todos os dias, ele passava no mesmo local, esperando por ela. E todos os dias ela vinha. Seus olhares em plena hora do rush. Fumaça de carro envolvendo tudo.

Foi numa dessas quebradas que ele a viu esperando por ele. Parecia ofegante, nervosa. Ele não compreendia as palavras dela e ela o levou para dentro de uma casa, escura. Ali, ela arrancou a blusa dele e acendeu a luz. Contemplou-o religiosamente. As formas desenhadas em seu dorso, o mundo mágico delas. Delicadamente, sua mão passeou por dragões, pássaros, plantas imaginárias. Sua mão suave tocando tigres de bocas arreganhadas, diabos alados, fogo. Traços finos, curvos, contornos e sombras. Ficaram horas ali, ela penetrando o mundo dele, ele sentindo a sua mão de menina. Amor.

Já fazia um tempo que ele se sentia observado. Seguido, mesmo. Andava pelas ruas do bairro e era como se alguém estivesse respirando atrás dele, sua sombra lhe pesando. Procurava quem, mas não tinha ninguém, estava enlouquecendo. Será que alguém tinha visto os dois? Não, ele já estaria morto a essa hora. Lembrou-se do desenho que estava fazendo dela. Caramba, estava demais. Como ela era linda. Até no desenho. Já estava com mais da metade da grana pra mandar fazer a tatoo. Ela vai ficar perto do coração, cubro o cisne, pensou. Aí, nem viu o carro. Morreu na hora.

Ela em seu quarto de princesa, branco, dourado e vermelho claro. Pequenas flores envolvendo tudo, cheiro suave. Seus cabelos lisos e pretos na fronha de seda e ela sorri, feliz. Olha em volta e vê como tudo parece mais bonito: o teto, as paredes, sua cama, seu corpo. A luz do quarto manchada com azuis, laranjas e rosas: tigres nas paredes brancas, dragões pelo teto, e em seu corpo: um cisne. A pele dele em seu abajur, iluminando tudo.

E onde quer que ele esteja, agora compreende: era por ela.

Acordo com o teu soluço a me perturbar
O sonho se transformou em pranto
Me reviro ao avesso com este dolorido canto
E mesmo que a minha face ofereça um amplo sorriso
E o brilho intenso dos meus olhos não mais seja reconhecido
Minhas gargalhadas ecoem por paredes de mármore
E as flores sejam sempre iguais, sem cheiros, nem cores
Mesmo que o jasmineiro, hoje, seja erva-daninha
O meu alimento seja o verme que de minha carne vive
e transforme a cada dia este corpo que um dia junto ao teu estremeceu
Mesmo que meus gélidos dedos não possam mais os teus entrelaçar
E minha respiração não mais se descontrole
e nem meu peito se descompasse
Só do teu nome ouvir falar
Mesmo que o meu arrependimento se prenda junto à cruz
que guia os passos teus em meio há tantas vidas
que se confundem em meio ao breu
e te faça refém de um sofrimento, já bem depois do esquecimento
Mesmo que os pássaros não cantem mais, nem mesmo a cotovia
Nem as cigarras, somente o coaxar de uma orquestra triste
De um solitário, que como eu a vida inteira se escondeu
E no afã do leito solitário sinto novamente o perfume de meus jasmins
Na lembrança doce de um sorriso teu
Não há mais canção, nem soluços, as noites são eternas
Só há silêncio, nem mesmo o vento vem me tirar para dançar
E, se nesse santuário impuro que um dia foi meu coração
E que nunca quiseste sua fronte repousar,
nem mesmo uma prece ousaste balbuciar
em uma singela ode a esta face que tantas vezes viste chorar
Mesmo assim…
Ainda trago no peito disforme o espaço nunca preenchido pela esperança
De um dia quem sabe me amar
E os sinos hão de dobrar, apenas quando em meus braços vier descansar.

A saudade entra no momento em que você desliga o telefone. Aproveita meu descuido ao pegar as correspondências em cima da mesa e invade o quarto. As gavetas, a pele e a memória. Assim, sem pedir, sem avisar. E me acompanha pela casa, pela cozinha, pela varanda, pelo banheiro. Queima a pele enquanto sinto a água escorrendo quente pelo corpo embaixo do chuveiro. Agarra o pescoço no momento em que me seco. Beija o peito no momento em que me visto. E quando me olho no espelho, lá está ela. A saudade que chega tão rápido, e que consome segundo a segundo nesta ausência, neste vazio que parece não ter fim até você colocar um fim. Porque você é as letras, as palavras, as frases, os parágrafos, os diálogos de meus textos. É o ponto de exclamação que me faz querer mais, e é a vírgula para que eu possa recuperar a respiração cada vez que lhe vejo. Sem você, agora, existem apenas páginas em branco. Sem você o meu dicionário possui um único verbete. Por isso, venha logo. Preciso ligar ou atender ao telefone. Preciso marcar um encontro. Entregar uma flor. Abrir a porta para você entrar. E deixar que a saudade fique lá fora, ouvindo a música de nossa paixão. Não, não é mais aquela em italiano.

[ Recado Direcionado ]
Kruel, não estou conseguindo lhe responder via MSN. Nem Freud explica esse mistério. Ah, e a resposta é: CLARO QUE EU VOU. “Eu tambémmmmmm não sou nada sem você… Que eu tambémmmm não sou nadaaaaaaa”. Risos.

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